Em 2016, a França contava com 900 casas de saúde multiprofissionais. Em 2026, contam-se mais de 2.600. Este crescimento fulminante não é um efeito de moda: é a resposta mais concreta ao problema dos desertos médicos.
E para os profissionais de saúde que conduzem estes projetos, é também um projeto empreendedor ambicioso.
O que é exatamente uma MSP?
Uma casa de saúde multiprofissional reúne no mínimo:
- 2 médicos generalistas
- 1 profissional paramédico (enfermeiro, fisioterapeuta, etc.)
Mas na prática, as MSP bem-sucedidas integram 8 a 15 profissionais: generalistas, enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, parteiras, psicólogos, nutricionistas, às vezes um dentista ou farmacêutico nas proximidades.
A particularidade que distingue a MSP de um simples consultório coletivo: o projeto de saúde. É um documento que formaliza os objetivos comuns, os protocolos de coordenação, as ações de prevenção. Sem projeto de saúde validado pela ARS, não há MSP.
Por que funciona melhor do que um consultório isolado
Para os pacientes
- Um percurso de cuidados coordenado (o médico vê o que o fisioterapeuta faz, o enfermeiro sabe o que o médico prescreveu)
- Horários ampliados (cada profissional tem seus próprios horários, a MSP está aberta das 8h às 20h)
- Acesso facilitado em zona subequipada (o efeito de atratividade atrai novos profissionais)
Para os profissionais
- Fim do isolamento (o flagelo do médico rural sozinho em seu consultório)
- Compartilhamento de despesas (secretariado, local, material comum)
- Trocas entre pares (pareceres informais, protocolos compartilhados)
- Remuneração complementar através dos NMR (novos modos de remuneração)
Os NMR: o divisor de águas financeiro
As MSP que têm um projeto de saúde validado pela ARS acessam o acordo convencional interprofissional (ACI). Este acordo repassa à MSP uma dotação anual podendo atingir 70.000 a 100.000 euros por ano, em função de indicadores:
- Acesso aos cuidados (atendimento sem marcação, amplitude horária)
- Trabalho em equipe (protocolos multiprofissionais, reuniões de concertação)
- Sistema de informação compartilhado
- Ações de prevenção e rastreamento
Esta dotação financia o secretariado, o software comum, o coordenador, e permite liberar tempo médico.
A estruturação do projeto: as etapas-chave
Fase 1: o núcleo fundador (6-12 meses)
Reúna 3 a 5 profissionais motivados em torno do projeto. Não é necessário estar completo desde o início — a MSP atrairá outros profissionais uma vez lançada.
Redigam juntos um projeto de saúde preliminar:
- Diagnóstico territorial (necessidades da população, oferta existente)
- Objetivos de saúde pública (prevenção diabetes, acompanhamento gestacional, etc.)
- Organização da coordenação
Fase 2: o apoio político e imobiliário (12-18 meses)
A MSP precisa de um local. Três opções:
- Construção nova (apoiada pela coletividade) — a mais frequente em zona rural. A prefeitura ou a intercomunalidade constrói e aluga aos profissionais.
- Reabilitação de um edifício existente — escola desativada, comércio antigo, casa paroquial. Custo menor, prazos mais curtos.
- Investimento privado — os profissionais constroem ou compram eles mesmos. Mais raro, mas existe via uma SCI.
Envolva a prefeitura e a intercomunalidade desde o início. Os eleitos locais buscam muito projetos de MSP — é um argumento político forte em zona rural.
Fase 3: os financiamentos (6-12 meses)
| Fonte | Montante possível |
|---|---|
| ARS (auxílio ao lançamento) | 50.000 - 100.000 € |
| DETR (dotação de equipamento dos territórios rurais) | 30.000 - 200.000 € |
| Região | 50.000 - 150.000 € |
| Europa (FEDER) | Variável |
| Empréstimo bancário (se investimento privado) | Conforme projeto |
Total de auxílios públicos mobilizáveis: 100.000 a 500.000 euros conforme o projeto e a zona.
Fase 4: a governança (permanente)
A MSP se estrutura juridicamente em SISA (Sociedade Interprofissional de Cuidados Ambulatórios). É a estrutura que recebe os NMR, emprega o pessoal mutualizado (secretária, coordenador), e gerencia as despesas comuns.
Pontos críticos de governança:
- Distribuição das despesas comuns (proporcional ao CA, ao tempo de presença, ou em partes iguais)
- Processo de decisão (unanimidade, maioria qualificada)
- Condições de entrada e saída dos associados
- Regimento interno (horários, limpeza, uso dos espaços comuns)
Os fatores de fracasso
O projeto imposto pela prefeitura — uma MSP que existe porque o prefeito a quis, sem engajamento real dos profissionais, não funciona. O projeto deve ser conduzido pelos profissionais de saúde, apoiado pelos eleitos. Não o contrário.
O médico líder autoritário — uma MSP é um coletivo. Se um médico a dirige como "seu" consultório impondo suas regras, os outros acabarão por sair.
A ausência de coordenador — além de 5 profissionais, alguém deve gerenciar o dia a dia (agenda, contabilidade, reuniões). Este cargo de coordenador, financiado pelos NMR, é frequentemente o fator-chave entre uma MSP que funciona e uma que se embrenha em conflitos logísticos.
A MSP não é apenas uma resposta aos desertos médicos. É um modelo de exercício que melhora a qualidade dos cuidados, a qualidade de vida dos profissionais e a atratividade do território.